
A escolha do sonhos
- Izabelle Ferreira Trombino

- 15 de jun. de 2025
- 2 min de leitura
Imagine que você tem condições financeiras para manter um carro bonito, confortável, econômico, seguro — o carro dos seus sonhos. Ele pode até ser um artigo de luxo, mas não é sobre ostentação. É sobre merecimento. É sobre segurança, realização, praticidade. É sobre algo que está ao seu alcance porque você trabalhou para isso, se esforçou, fez por merecer.
Agora, pense em quantas vezes você abriu mão desse “carro dos sonhos” em outras áreas da vida. Quantas vezes se viu dirigindo um carro velho, sem freios, barulhento e desconfortável, apenas porque alguém disse que era o suficiente para você? Quantas vezes aceitou menos, muito menos do que aquilo que poderia — e deveria — ter?
Quantas vezes você se anulou para manter um emprego onde não é valorizado, mas se convenceu de que “ao menos está empregado”? Quantas vezes sustentou um relacionamento que te diminui, mas se consolou com a ideia de que “é assim mesmo, ninguém tem tudo”? Quantas vezes deixou de fazer aquela viagem dos seus sonhos para visitar o lugar de sempre, aquele “bonitinho e acessível”, porque parecia mais sensato.
Quantas vezes você riu de piadas sem graça, escutou longamente aquele amigo que nunca te pergunta como você está, e ainda se justificou: “ele precisa mais do que eu”? Quantas vezes ajudou a família, deu, fez, cuidou, mas quando foi sua vez, aprendeu a se virar sozinha, porque “não se pode esperar dos outros”.
A gente vai aprendendo a reduzir. Vai encolhendo os desejos, as expectativas, os sonhos. Vai se convencendo de que esperar por mais é ser ingrato. Que querer reciprocidade é querer demais. Que esperar ser tratado com carinho, ser surpreendido com um gesto, uma flor, uma escuta atenta, é coisa de gente “emocionada”.
Mas a verdade é que não deveríamos precisar justificar nossos desejos. Explicações psicológicas podem até existir — Freud, Winnicott, traumas, famílias disfuncionais — mas uma coisa é entender o porquê. Outra é aceitar que isso nos condena a viver com menos do que merecemos.
Você é alguém esforçado, cuidadoso, amoroso. Você se entrega, se dedica, acolhe, escuta. Por que aceitar migalhas em troca? Por que achar que sonhar com um casamento leve, com gestos de carinho espontâneos, com um lar bonito e cuidado, é futilidade? Por que agradecer pelo mínimo, quando você oferece o máximo?
Temos o direito de desejar. De manter expectativas vivas. Devemos nos alinhar com pessoas e espaços que ofereçam afeto verdadeiro, empatia, respeito, reciprocidade. Temos o direito de não nos contentar com pouco.
Porque querer mais — em amor, em relações, em vida — não é excesso. É autoconhecimento. É coragem. É dignidade.



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