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Quando amar me pede pra sair de mim

Atualizado: 26 de mai. de 2025

Li um texto esses dias que dizia que “o casamento é sobre pessoas que querem melhorar o tempo todo para si e para a outra”. A frase, embora bem-intencionada, me provocou uma reflexão. Pensei: até que ponto a ideia de “melhorar-se para o outro” não vira um caminho de afastamento de si mesmo? Até onde a entrega e a dedicação se transformam lentamente em “devoção” ao amor.

Foi a outra pessoa que pediu isso? Quem, de forma silenciosa, repetida e quase imperceptível, vai se empurrando para fora de cena e centralizando a relação e o outro?


O resultado pode ser, muitas vezes, ficar nos bastidores, esperando que, por algum milagre, o outro te enxergue ali, escondido, exausto, ofertando tudo de si. Existe uma linha tenue entre devoção e reciprocidade no compartilhamento da vida.


A psicanálise ensina que não amamos apenas pelo que sentimos, amamos a imagem que constituimos do outro na relação. Muitas vezes, no anseio de ser desejado ou amado, você pode acabar buscando uma correspondência de amor idealizado, ou seja, fantasioso e ireal. Nessa tentativa de não perder quem se ama, servir com devoção pode parecer uma garantia contra a perda ou troca — como se amar significasse fazer tudo pelo outro (até mesmo diminuir-se) para receber uma boa ou pequena parcela de amor ou dedicação em troca. Então, como encontrar em si uma maneira de amar sem seguir um caminho de perda de si mesmo?


Uma criança real e saudavél é expontânea. Isso inclui poder exigir, gritar, fazer birra, negar e desobedecer. Como adultos, sentimos desejo de dizer não, de gritar, de desobeder, de não realizar algo. Sentimos afetos desagrádevis e agradáveis sobre qualquer pessoa ou situação.

O que seriam comportamentos normais, muitas vezes acabam sendo reprimidos e determinados como inadequados pelos adultos ou pela cultura. Esse processo pode acabar influenciando diretamento na dinâmica de uma pessoa, que progressivamente torna-se aquela que faz tudo por todos a sua volta, mesmo que em seu interior queira rejeitar essa submissão. Qual o custo de ser ou ter sido uma criança boazinha, que serve aos pais, sem dar nenhum trabalho? É preferível agradar, do que desobedecer? Agradável para quem?


Muitas pessoas, acreditam que não serão amadas se ofertarem amor, atenção e cuidado com limites, sem devoção e com uma boa parcela de defeitos humanos. Preservar seus desejos, suas prioridades, seus interesses e limitações também define uma preciosa parte do que você é.

Ser amada e amar com limites e defeitos, também torna o amor mais verdadeiro.


Em um momento da vida, algumas pessoas, no exercício da auto percepção observam: “Eu sai de mim”, "Não sei quem eu sou", "Cuido de todos e nunca tenho tempo para mim". A casa desarrumada, o guarda-roupa bagunçado, a falta de prazer em cuidar das próprias coisas, do próprio corpo, dos próprios sonhos, são expressões simbólicas de um sujeito que perdeu seu eixo, sua voz, seu centro.


É certo que todo amor carrega alguma expectativa ou alguma esperança de reciprocidade. Mas o amor que não encontra limite, pode ser devastador. Existe um custo psíquico nos relacionamentos e quando a reciprocidade é ausente, ou quando acredita-se que "amar é incondicional", e não se devo exigir nada em troca, o custo é ainda maior.


Essa ideia de que o amor precisa ser um espaço onde duas pessoas querem “melhorar-se uma para a outra” carrega beleza e perigo. O amor genuíno se aproxima da ideia de reconhecimento — amar o outro apesar das faltas, não porque ele é um projeto de versão ideal. Lacan vai dizer que “amar é dar o que não se tem a alguém que não o é” — ou seja, o amor verdadeiro é uma experiência de falta compartilhada, não de completude exigida.


Quando o amor se torna um compromisso de “melhorar-se para o outro”, de "devocão" corre-se o risco de transformar a relação num campo de desempenho e não de encontro. E o pior: quando a melhora esperada não vem, instala-se a frustração, a culpa, o sentimento de fracasso.


Mais do que melhorar-se para o outro, talvez o amor deva ser o lugar onde a gente se sente seguro o suficiente para crescer — se quiser, se puder, no nosso tempo. Sem contratos invisíveis de perfeição, mas com presença, cuidado e verdade.

 
 
 

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© 2018 por Izabelle Ferreira Trombino

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